Ler nem sempre é bom
Artigo sobre as obras de Elias Canetti e Karleno Bocarro
Ter ou consumir livros, hoje em dia, é visto como um caminho certo para a elevação moral, o autodesenvolvimento e a empatia com os outros, o que acaba transformando o ato de ler em um fetiche cultural inquestionável. Ou seja: quanto mais se lê, melhor se fica. Contudo, a grande literatura frequentemente se encarrega de demolir essa faceta utilitarista ao expor o lado sombrio da erudição. Quando a palavra escrita deixa de ser uma ponte para a compreensão da realidade e se transforma em mecanismo de isolamento, o conhecimento perde sua função. Longe de ser um remédio para os males da vida, o acúmulo de saberes sem uma experiência humana concreta correspondente pode se tornar o mais sutil e devastador dos venenos.
No caso de Peter Kien, o protagonista de Auto-de-Fé, de Elias Canetti, a atrofia existencial é representada exemplarmente. Para o brilhante sinólogo, os livros deixam de ser veículos de exploração para se tornarem tijolos de uma fortaleza defensiva contra o mundo. Ao emparedar as janelas de seu apartamento para abrir espaço a novos volumes, Kien decreta a anulação da carne, do outro e do imprevisto. Sua ruína não nasce da falta de luz intelectual, mas do excesso de uma racionalidade asséptica que, ao demonizar a vida prática e as relações humanas, o torna pateticamente indefeso diante da crueza das ruas e da própria loucura.
De maneira similar, embora sob uma chave mais existencial e teológica, o professor Aderbal Semei, protagonista de O Advento de Karleno Márcio Bocarro, quer ser escritor e lê compulsivamente para não ter que lidar com traumas passados ou com a realidade que o sufoca. Em meio ao desarranjo e às sombras que o acompanham em seu exílio (exterior e interior) na metrópole paulistana, Semei se emaranha em suas leituras, como num labirinto, para não confrontar suas culpas e medos remotos. Para ele, a erudição funciona como uma trilha para sua queda espiritual, na qual o conhecimento do passado atua como uma anestesia paralisante que vaticina pragas e o impede de agir no presente. A biblioteca, aqui, deixa de iluminar o caminho e passa a atuar como o veredito de uma condenação a se cumprir.
Tanto Kien quanto Semei utilizam o universo livresco como uma forma de fuga da realidade, revelando que ler pode sim ser um ato nocivo. Enquanto o primeiro se esconde em sua fortaleza de livros por repulsa à imperfeição humana, o segundo se afunda nos estudos por incapacidade crônica de suportar o peso da própria existência e da solidão, levando sempre uma vida hesitante, muito almejando e nada concluindo. O paradoxo compartilhado por ambos é que o que era defesa se torna prisão; ao tentarem escapar das dores do mundo real por meio do texto, os personagens acabam soterrados pelo mesmo inventário cultural que deveria salvá-los, provando que a inteligência puramente teórica é perfeitamente capaz de produzir uma cegueira prática absoluta.
Esse excesso de leituras comporta uma ironia metalinguística refinada sobre o próprio leitor que consome as duas obras citadas. Para acompanhar e decifrar as complexas camadas intelectuais da ruína desses personagens, quem lê é obrigado a mimetizar o exato comportamento criticado: isolar-se, silenciar-se e afastar-se do mundo concreto para fixar os olhos em páginas impressas (ou digitais nos dias de hoje). Há um curto-circuito no entendimento das obras, ou mesmo um tipo de espelhamento ou armadilha literária, pois o leitor com maior bagagem cultural, capaz de captar as alusões e intertextualidades das narrativas, é justamente aquele que corre o maior risco de sofrer da mesma soberba ou da mesma paralisia que destruiu os protagonistas, cada um a seu modo.
Após a leitura das obras, é possível até perceber de forma nuançada o que hoje é considerado tabu. Em nosso imaginário, a queima de livros é o símbolo supremo da barbárie totalitária: é o ápice da ignorância destruindo a cultura. No entanto, Canetti e Bocarro nos forçam a olhar para o outro lado da moeda: e se o livro, em si, tiver se tornado um instrumento de opressão, alienação ou morte espiritual? Se o senso comum enxerga no fogo o ápice da ignorância destruindo a cultura, as trajetórias de Kien e Semei forçam a admissão de que existe também uma barbárie nascida do excesso de livros — uma brutalidade fria e burocrática que prefere a teoria à vida.
Quando Peter Kien incendeia a própria biblioteca no desfecho do romance, o fogo surge não apenas como a coroação de um fim trágico, mas como a materialização inevitável de uma estrutura que já estava espiritualmente morta. O ato destrutivo ganha contornos de uma purificação radical, sugerindo que, quando o conhecimento se desvincula da compaixão e da abertura para o vivo, a destruição do registro pode ser o único alívio para uma mente aprisionada.
Com maestria, Canetti e Bocarro nos mostram que ler nem sempre é bom, mas para uns é só o que resta a fazer quando já escolheram (mesmo que inconscientemente) se fechar para a vida.


muito bom; é interessante como cada leitor observa nuances ê intertextualidades que outro não encontrou. Tua leitura é muito original.
O sr. também leu (encarou) ou Auto de Fé do Canetti? Aí tem meu respeito!