Claraboia
Poema

A luz que entrou numa manhã de fevereiro Foi filtrada pelo vidro já levemente fosco E atingiu as vistas, já fatigadas, do velho Que quase cochilava em sua cadeira de balanço. A cor que o céu fazia naquele dia lembrou-lhe De tempos antigos em que brincava com os irmãos; Recebia carícias da mãe e aprendia, com algum esmero, A carpintaria, profissão que o pai lhe transmitiu. Construiu móveis e brinquedos, por anos a fio, Mas não forjou a cadeira que agora usa. Do avô para o pai, e do pai para ele, A cadeira foi o legado deixado de uma geração à outra. No sótão onde está, muitas vezes esquecido, Olha para cima e avista a claraboia. A cadeira lhe sustenta, alicerce familiar, Mas é como âncora: pesa e aprisiona. Já velho e cansado, vê a si mesmo Transpassando o telhado e indo embora Para ser jovem novamente — Desta vez para sempre.

