As broas do meu avô
Crônica
Candinho, meu avô materno, era confeiteiro por profissão. Chegou a morar anos em São Paulo, mas era de Minhas Gerais. Quando o visitávamos em sua casa em Guaxupé, ele muitas vezes nos recebia com broas de milho. Provavelmente por terem sido feitas com uma certa antecedência, às vezes estavam um pouco secas, mas eram as melhores broas que já comi, porque eram as que meu avô fazia para nós. Como quando Pessoa afirma que o rio Tejo não é mais bonito que de sua aldeia exatamente pelo motivo de não ser o da sua aldeia.
Lembro-me dele já com uma certa idade, mas sempre brincalhão. Assim como eu, não chegou nem aos 1,70 m de altura. Sua voz um tanto grave, principalmente quando a impostava, de vez em quando saía falha. Tinha um amor por música e foi autodidata. Chegou a ter um grupo de chorinho no qual tocava bandolim, eram os Biônicos do Ritmo. As reminiscências que guardo dele me veem à memória de forma desordenada. Aproveito para contar um fato que o marcou por toda a vida. Sei disso porque ele mesmo me contou esta história.
Quando era criança, o pai dele ordenou que buscasse algo. Ele parou no meio do caminho para brincar num lago ou açude da região — eles moravam na zona rural na época. Quando ele finalmente voltou, o pai reclamou da demora e já lhe acertou um safanão, dizendo:
— Ô Cândido, quando eu mandar você fazer algo, é na hora!
Depois disso, acredito que meu avô se tornou uma pessoa apressada, ansiosa, até mesmo impaciente, e preocupada com pontualidade. Acabou que ele também reclamava quando tinha que esperar os outros.
Todas essas recordações, entre outras que aqui não escrevi, me vieram após comer uma broa recentemente. Não era a do meu avô, inclusive porque a dele não tinha erva doce — a que comi no trabalho tinha. Contudo, essa broa, vicariamente, me remeteu à broa do meu avô. Vivenciei uma situação análoga à de Anton Ego ao experimentar o ratatouille preparado pelo rato Remy. Ou melhor, foi o meu momento proustiano. Então digo sem acanhamento: tenho saudades das broas do meu avô. O que só é uma outra forma de dizer: tenho saudades do meu avô.



Que graça!